SANTA FELICIDADE!

Em Curitiba existe um bairro com esse nome: Santa Felicidade. Ele se caracteriza por ser uma região cheia de restaurantes e lojas com produtos gourmet. Por lá se encontram excelentes vinhos e queijos, por exemplo, além de charcutarias de qualidade. Trata-se de um enclave italiano, com grande movimento de turistas. Nele existe o Memorial da Imigração Italiana, espaço cultural localizado em um parque, que abriga eventos como a Festa da Uva – está longe de ser como a de Caxias do Sul, mas tem seu valor e importância. E existe a igreja da Paróquia São José e Santa Felicidade (eu não sabia que santos faziam condomínios), na avenida Manoel Ribas, que possui um teto ricamente ornamentado e foi construída nos anos 1800. Confesso que estive poucas vezes na capital paranaense, mas gostava muito de lá. Um pouco da mística se perdeu quando a cidade passou a sediar a inquisição, que de santa não tinha nada, liderada pelo ex-juiz nada neutro Sérgio Moro.

Mas isso tudo já passou: o tribunal de exceção mostrou a que veio e perdeu sua aura e força. O magistrado que o liderava está na lata de lixo da história – pena ser pequena a chance de se ver ele algum dia na prisão, ainda mais agora que conseguiu imunidade parlamentar – e, acima de tudo, mesmo tendo perdido quatro anos de sua história, o Brasil está voltando para os eixos. Aliás, não foram quatro, mas seis anos, somando os dois de ensaio com os quatro de desastre. Nesse tempo não se avançou nada e, na realidade, se voltou pelo menos um século atrás. O país, nesse período, cresceu como rabo de cavalo: em direção ao chão. É por isso que sugiro que o dia de ontem passe a ser declarado como o Dia do Banho de Descarga. Ou então Dia do Descarrego, se alguém achar que esse termo é melhor. Deveria ser tão generalizado a ponto de causar falta de sal grosso nessa Terra Brasilis, por tanta procura, por demanda absurda, com ele deixando de lado o uso culinário e adentrando nossos banheiros.

Para os gaúchos, ainda bem que estamos em uma segunda-feira, pois se imaginariamente isso já tivesse acontecido, logo depois da apuração, ainda assim teríamos tempo de esperar que os estoques todos fossem repostos antes do tradicional churrasco do próximo domingo. Se bem que a eleição de Lula, que não completou 24 horas, não poderia ter conseguido a proeza de baixar o preço que vem sendo cobrado pela carne. Ela, durante o desgoverno de Bolsonaro, andou fugindo dos olhos, espetos e pratos das pessoas. Esses últimos não comportam sequer arroz e feijão, não tendo como se dar ao luxo de conter cortes bovinos.

Os únicos que estão em pedaços são justo aqueles que acreditaram que seu mito iria emplacar mais uma vez. Mas, como diria minha vó Dorinha, do alto de sua sabedoria, ela que costumava repetir ditados populares com oportunidade ímpar, “não há mal que sempre dure”. ACABOU! Aliás, em homenagem ao falso cristão que agora vai deixar o trono onde nunca deveria ter sentado – ao seu sucessor, na realidade –, vai uma passagem bíblica: “Ele lhes enxugará dos olhos toda a lágrima; não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porquanto a antiga ordem está encerrada!”. Apocalipse 21:4.

Bolsonaro, ao menos por algum tempo, pode ser considerado passado. Sua (des)ordem acabou, uma vez que sem poder ele não é nada. Ou volta ao nada que sempre foi. Sem os seus 65 sigilos de cem anos, vai conseguir ser pessoalmente menos do que isso. Menos do que um zero à esquerda. No máximo restarão alguns estertores familiares e seu ranger de dentes até a passagem da faixa presidencial, o que ele com certeza não terá coragem suficiente para fazer. Certamente fugirá da responsabilidade como fugiu de todas as anteriores e do trabalho. Só esperamos que não consiga fugir da prisão, tão logo seja julgado por boa parte dos inúmeros crimes que vinha sistematicamente cometendo. 

Claro que sobrará o bolsonarismo, essa versão tupiniquim do fascismo, que ainda precisará ser combatida com o mesmo rigor e sem tréguas: o vetor está agora neutralizado, a doença por ele transmitida ainda não. Mas, que isso seja feito assim que se respire um pouco, sentindo esse ar delicioso de novos tempos. Porque temos o direito de dedicar alguns bons momentos para festejar, antes de que se prossiga com a luta. Na batalha contra a ignorância, não contra quem perdeu, porque a perseguição é característica desse governo que o povo não quis mais, não do que voltará ao poder.

O que não se pode esquecer, no entanto – e isso é fundamental –, é que mais de 50 milhões de brasileiros seguiram acreditando no canto da sereia. Nas falsas mensagens, enviadas por robôs, ao invés de ouvir os alertas de familiares e amigos que não haviam se contaminado. Pessoas que passaram a agir movidas por instruções de WhatsApp, que também repassavam, ao invés de exercitarem sua capacidade de raciocínio, de pensamento crítico. É mesmo inacreditável que tanta gente possa ainda estar seguindo alguém responsável por milhares de mortes, por não ter comprado vacinas a tempo, durante a pandemia. Um falso cristão, racista, homofóbico, que admite que devoraria um ser humano, que diz que “pintou um clima” com meninas e que ofende mulheres e minorias. As mesmas pessoas que acreditam que Lula é um comunista, que ele vai destruir nossa economia e restringir a liberdade das pessoas. Bastava se dar conta que o PT esteve por 14 anos no poder, com o próprio Lula e Dilma, sem que isso tivesse acontecido. Ao contrário, vivemos naquela época uma pujança imensa, com distribuição de renda sem que algo tivesse sido tirado de ninguém, mas graças ao crescimento do país.

Pior ainda, nesse contingente enorme de pessoas existe quem jure serem projetos do futuro governo criar os banheiros únicos nas escolas, fechar as igrejas (foi Lula que assinou a Lei da Liberdade Religiosa), legalizar o aborto (quem elabora leis é o Congresso, não o presidente), que o novo presidente tinha ligações com o PCC (quem passou a vida homenageando e dando emprego para milicianos?), que as casas das pessoas seriam confiscadas para dar aos sem-teto, que Lula iria destruir o agronegócio e que uma cartilha do PT incentivava o consumo de drogas. Isso para citar apenas algumas das inúmeras mentiras que precisaram ser contestadas na justiça. O que foi feito, com sucesso. Com essas pessoas ainda se precisará conversar muito. Porque o entendimento se faz necessário, mesmo que a cegueira do fanatismo dificulte isso.

Mas, enfim, o assunto de hoje é felicidade. A minha é imensa, como também é imenso o número de quem me acompanha nesse sentimento sublime. É enorme a do Brasil inteligente e solidário. Ontem à noite brindei com um espumante de boa qualidade. Dormi pouco e sigo com um sorriso persistente, que não abandona meu rosto. Hoje nem mesmo a minha lombar, que vez por outra é inconfiável, terá o poder de me tirar do prumo e do sério. Até porque eu já saí deles por conta própria: gritei, bati panela, toquei jingle com volume alto na minha sala – que desculpem os vizinhos, mas era necessário –, me senti tão jovem que fico desejando uma eleição dessas por semana. A parte ruim seria a ansiedade, mas no frigir dos ovos faria muito bem ao meu corpo, mente e espírito.

31.10.2022

Milhares de pessoas comemoraram a vitória de Lula na Paulista. E em todo o país

Os bônus de hoje são o áudio de Tá Na Hora do Jair, da dupla Maderada Brasil, e um clipe de excelente samba. A primeira música, que é no ritmo piseiro, uma nova vertente do forró, se tornou verdadeiro hino nos últimos dias. Atingiu rapidamente mais de um milhão de visualizações no Spotify, números da semana passada. Os autores dessa façanha são Juliano Maderada e Tiago Doidão – a letra é de autoria do primeiro –, moradores de Iguaí, no interior da amada Bahia. Quanto ao clipe, nele está o Grupo Revelação e sua Tá Escrito, em gravação feita ao vivo. Uma exaltação à luta e à felicidade da conquista posterior.

Tá Na Hora do Jair – Maderada Brasil

EQUILÍBRIOS, NO PLURAL

Etimologicamente a palavra equilíbrio, em português, foi adotada a partir do idioma francês équllibre. Na França, por sua vez, a herdaram do latim aequilibrium. Seu uso principal foi apropriado pela física, ciência que identifica essa como a condição de um sistema no qual todas as forças que sobre ele atuam se compensam e se anulam totalmente. Isso representa um corpo sem oscilações ou desvios de qualquer natureza. Mas daquela ciência verteu para significados mais abstratos, abraçados em especial pela psicologia, além de outras das ciências ditas humanas e sociais. Nessas, equilíbrio virou sinônimo de sanidade e paridade não apenas de forças, como também de intenções e propósitos. Não esquecendo que a paridade pode ser semelhança e nem sempre significa igualdade.

Do ponto de vista pessoal é tida como equilibrada aquela pessoa não tendente a escolher entre lados que estejam em limites opostos, em extremos, mas sem que isso implique numa postura eterna, imutável. Até porque só quem é equilibrado e saudável pode rever seus pontos de vista e consequentes posicionamentos. Pode-se também acreditar que o equilibrado é aquele que não “explode”, mas isso não significa necessariamente algo bom para a pessoa, uma vez que são muitas as ocasiões na vida nas quais extravasar é o mais saudável e libertador.

Se vamos examinar a questão de pontos de vista comunitários e sociais, abordando política por exemplo, há que existir o cuidado de que esta expressão não aponte para acomodação, despreocupação e falta de compromisso. Nesse caso específico, ser “neutro” é no fundo ter um lado que em geral se revela perigoso, porque o “não envolvimento” é irmão gêmeo da omissão. No campo político há inúmeras situações onde a postura correta é justamente a de escolher uma das pontas, evitando o conforto da estabilidade. Porque quando nos sentimos estáveis a ponto de abandonar causas das quais outros dependem, não defendendo ações coletivas, estamos apenas protelando o momento em que nós também estaremos vulneráveis. O que nos tornará vítimas tardias da nossa própria falta de coragem. Um exemplo concreto seria tratar com tolerância os que são intolerantes e, em função disso, permitir um risco que tende a destruir o equilíbrio. Fechar os olhos para o avanço de uma visão do mundo que segrega, desumaniza e agride, achando que isso pode ser bom ou que, no mínimo, não atinge a você e seus interesses, é assumir a cegueira da ignorância.

Outro exemplo concreto, agora para temas sociais: dar chances iguais não é ser equânime, o que transforma a meritocracia numa falácia. Uma sociedade justa e equilibrada dá a cada um dos seus membros conforme suas necessidades e cobra de cada um deles conforme suas reais capacidades. Ou seja, justiça – não por acaso o seu símbolo é uma balança – é quando se avalia considerando as diferenças e não fazendo de conta que elas não existem. É tratar os diferentes de forma compensatória. Como fazer uso de cotas, para citar uma das tantas ações afirmativas que são possíveis e necessárias. Claro que isso fere os interesses de uma sociedade constituída e movida apenas pela produção e pelo consumo, mas não considerar essa variável é desumanizar as relações. Que é exatamente o que se vive hoje em dia. Um mundo onde parece bom ser mau e alheio aos sentimentos e às dores dos outros. Um mundo onde o desequilíbrio é que assume a centralidade, onde alargar distâncias e macular a dignidade das pessoas está sendo naturalizado.

14.11.2021

Equilibradas são as pessoas e as sociedades que buscam equidade e justiça

No bônus musical de hoje, Maria Rita canta O Bêbado e a Equilibrista, magnífica composição de João Bosco e Aldir Blanc.