XINGAMENTOS

Tudo nessa vida parece ter prazo de validade. Aliás, até ela própria. As coisas surgem, têm sua vida útil – ou nem tanto –, saem do contexto e depois terminam desaparecendo. E o incrível é que isso vale até mesmo para palavras. No caso dessas, não é que sumam de vez, mas caem em tal desuso que tendem ao esquecimento. Ficam morando em páginas de dicionários, saindo de lá só em casos muito especiais.

Recentemente a minha amiga Regina da Costa da Silveira me enviou um vídeo no qual eram listados vários xingamentos que haviam “saído de moda”. Tipo lambisgoia (pessoa antipática e magra), sirigaita (moça exibida, afetada ou “saidinha”), estrupício (alguém desajeitado ou muito atrapalhado), mequetrefe (sujeito insignificante, ordinário, sem valor), bocó (pateta, lerdo de raciocínio), paspalho (tolo, bobo, sem atitude), bruaca (mulher velha, malvada ou feia), chinfrim (barato, sem graça, ordinário), chumbrega (cafona, malfeito, de mau gosto), mocorongo (indivíduo atrasado, sem iniciativa), palerma (sem atitude ou iniciativa), tongo (desatento, bobalhão), varapau (pessoa muito alta e magra), songamonga (sonsa, tonta, mas pode ser falso isso e ela ser astuta), abelhudo (intrometido, fofoqueiro, xereta) e mundiça (corruptela de imundice, refere gente sem modos, barulhenta de mau comportamento).

Interessante é que muitos deles aparecem perpetuados em obras literárias. Ou seja, não são fruto apenas de uma tradição oral, mesmo que tenham surgido dela. Existem ocorrências documentadas ou amplamente atribuídas. Em vários dos casos os vocábulos aparecem em diálogos coloquiais das personagens, algo comum na literatura regionalista e urbana. Foi assim que tratei de pesquisar essas situações, por sugestão da Regina. E encontrei algumas.

Em trecho de Tieta do Agreste, Jorge Amado escreve: “– Saia daqui, sua lambisgoia! – gritou Perpétua, enfurecida.” O termo aparece, nesse caso, perfeitamente coerente no contexto das disputas morais e sociais que se desenrolavam na pequena cidade de Santana do Agreste. Por sua vez, Aluísio de Azevedo, em O Cortiço, um romance naturalista, incorpora com frequência termos depreciativos do vocabulário popular do século XIX. Um exemplo, dele retirado: “Chamavam-na de sirigaita pelas costas, entre risinhos e cochichos maldosos.”

A mesma linguagem coloquial é encontrada em A Normalista, de Adolfo Caminha: “Não se meta onde não é chamado, seu estrupício!” E ainda em São Bernardo, de Graciliano Ramos: “Aquele mequetrefe não valia o que comia.” Este termo aparece em outras obras, sempre para qualificar (ou desqualificar) sujeitos. Já a compleição física de alguém, também vista como depreciativa, está no fantástico Os Sertões, de Euclides da Cunha: “Um varapau de homem, seco e duro como a própria caatinga.

 Monteiro Lobado usava paspalho para definir personagens tontos. Como se vê neste diálogo entre Emília e Sabugosa: “– Por isso mesmo, repetiu o Visconde. Um paspalho que não sabe distinguir um besouro de uma pepita de ouro não merece morar no Sítio do Picapau Amarelo!” Em crônicas de costumes, como as de Ariano Suassuna e Stanislaw Ponte Preta, o termo bocó era recorrente .”O sujeito ficava ali, com aquela cara de bocó, olhando para a moça sem coragem de dizer um ‘viva’. Era um desses bobos da semente, que perdem o bonde da história por pura lerdeza de espírito.” (Sérgio Porto, o Stanislaw).

Bruaca é outro xingamento tipicamente regionalista, muito presente no ciclo do cangaço e na literatura nordestina, como em obras de Rachel de Queiroz.“– Cala essa boca, sua bruaca velha! – gritou o jagunço, enquanto a mulher recuava para o canto da cozinha, escondendo o rosto sob o xale desbotado.” O trecho é do Memorial de Maria Moura. Mas se encontra uso semelhante em José Lins do Rego.

Para achincalhar a classe média e suburbana, uma das coisas que mais gostava de fazer, Nelson Rodrigues usava chinfrim para apontar o que tinha baixa qualidade ou pouco valor. “Era um casório chinfrim, com sanduíche de carne louca e guaraná quente. O noivo, um coitado, tinha um cravo na lapela que parecia colhido no lixo da véspera.” (A Vida Como Ela É) Também para descrever a decadência, mas de certas elites , João Ubaldo Ribeiro fez uso de gíria oral: “A decoração da festa estava uma coisa chumbrega de dar dó: balões murchos e umas fitas de papel crepom que desbotavam no primeiro suor do salão.” (Viva o Povo Brasileiro).

Como o texto ficou longo, os exemplos param por aqui. Mas, é inegável que até nesse tema a literatura brasileira consegue ser muito rica.

17.03.2026

O bônus de hoje é um gênero musical que quase nunca uso por aqui. Mas, como os exemplos literários estão cheios de regionalismos, vamos ficar com os gauchescos Garotos de Ouro e o Bugio do Velho Duca. Na letra, alguns dos xingamentos citados se fazem presentes.

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