SOBRE FAIR PLAY

Poucos dias atrás, em jogo eliminatório válido pelo Campeonato Gaúcho de Futebol, se enfrentavam Juventude e São José, em Caxias do Sul. O time visitante vencia por 1×0 quando o atleta esmeraldino Alisson Safira recebeu lançamento e seguiu com apenas um marcador pela frente, para o gol adversário. E este caiu, com uma evidente lesão muscular. Então, o atacante desistiu da jogada, levantando os braços e alertando a arbitragem e demais jogadores. Ele ficaria livre com o goleiro contrário, com enorme chance de igualar o placar. Mas preferiu não fazer isso. Foi amplamente vaiado por parte da torcida do seu próprio time. Ao final, a vitória por 3×2 garantiu o Juventude na fase seguinte, contra o Grêmio.

Este não foi um fato inédito no futebol brasileiro. O chamado “fair play” já ocorreu em outras oportunidades, mesmo raramente sendo visto com bons olhos pela totalidade dos torcedores. Na semifinal do Paulistão de 2017, por exemplo, se enfrentavam no Morumbi as equipes do São Paulo e do Corinthians. O goleiro alvinegro Cássio – gaúcho de Veranópolis – saiu para socar uma bola e trombou com seu companheiro Jô. O árbitro Luiz Flávio de Oliveira interpretou que na sequência o corintiano pisou de propósito no pé do são-paulino Rodrigo Caio e lhe aplicou cartão amarelo que o tirava do jogo de volta. Foi alertado pelo suposto atingido que, na realidade, o lance fora acidental e que ele sim havia pisado em Jô. Com o cartão retirado, o goleador adversário pode atuar na partida de volta. Até dirigentes do tricolor paulista o acusaram de “ser bonzinho demais”. Ao que ele retrucou afirmando que preferia dormir de consciência tranquila, ao invés de vencer não tendo mérito.

Há casos históricos, muito mais difíceis e emblemáticos, que ocorreram em vários esportes distintos. Talvez um dos maiores seja o que houve em prova do atletismo, nas Olimpíadas de 1936, na Alemanha. Em pleno regime nazista se enfrentavam, no salto em distância, o alemão Luz Long e seu grande rival da época, Jesse Owens. O estadunidense estava prestes a ser desclassificado, por ter as suas duas primeiras tentativas anuladas por queimar o ponto. Então, Long foi até ele e o aconselhou como deveria fazer, para não repetir o erro, como conhecedor que era das peculiaridades do Estádio de Berlim. Owens seguiu a dica, avançou e ganhou a Medalha de Ouro. Depois, recebeu do adversário derrotado os cumprimentos, dados na frente de Hitler. Homem negro, recebeu outros três ouros nos mesmos jogos, em 100 e 200 metros rasos e ainda no revezamento 4x100m, para desespero e ojeriza total do líder nazista.

Em 2016, na final da prova de triatlo que era válida pelas World Series, no México, Jonny Brownlee estava prestes a desmaiar devido ao calor extremo, a poucos metros da linha de chegada. Seu irmão Alistair, que vinha logo atrás e iria ultrapassá-lo, parou. Então, colocou Jonny em seus ombros e o carregou até o fim. No final, empurrou-o para que ele cruzasse a linha em primeiro. Poderiam ainda constar em lista situações ocorridas na esgrima, no automobilismo, no tênis, no ciclismo, na vela e em muitos outros esportes.

Voltando ao caso recente, em Caxias do Sul, diferente de outros – isso no futebol – em que o time está vencendo ou o jogo é amistoso, ganha relevância a decisão de Safira porque ela poderia ter sido decisiva para a eliminação da sua equipe. Mas, ele colocou a integridade física do outro, seu companheiro de profissão, acima da oportunidade momentânea e que nem era faltosa ou desonesta, apesar de eticamente condenável. O zagueiro envolvido, Diney, inclusive precisou ser substituído devido à lesão sofrida. Curiosamente, a mesma partida em questão terminou em um confronto entre vários jogadores dos dois times, depois de outro atleta juventudista ter debochado do goleiro contrário, quando a vitória foi alcançada de virada, com dois gols nos acréscimos. Enfim, nada no mundo é perfeito.

20.02.2026

O bônus de hoje é a música Espirito Esportivo, de Moraes Moreira.

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