QUATORZE MESES À DERIVA

Foi doze anos atrás, em 2014, que ficou estabelecido aquele que até hoje é o recorde de permanência vivo no mar. A façanha foi estabelecida por José Salvador Alvarenga, um pescador salvadorenho que vivia no México. Em novembro de 2012 ele partiu da costa de Chiapas para uma pescaria que deveria durar dois dias. Com ele, o assistente Ezequiel Córdoba. Os dois ocupavam um pequeno barco, de sete metros, feito de fibra. O problema é que um mau tempo inesperado os surpreendeu e a volta ficou impossível por ter falhado o motor de popa. A correnteza e o vento os foram afastando cada vez mais mar adentro. E, para seu azar ser completo, falhou também o sistema eletrônico, afetado que foi pela tempestade. Ficaram então à deriva e sem comunicação com a terra.

A embarcação seguiu à deriva, pelo Oceano Pacífico. E a dupla, para se alimentar, passou a pegar peixes que vinham para a sombra do barco, usando iscas feitas com pedaços de plástico. Dilacerados com as mãos, esses eram comidos crus. Vez por outra também alguma ave descuidada era apanhada ao pousar para descanso. Muito mais severa, no entanto, era a questão da água, que eles armazenavam quando chovia. Na falta dela, bebiam o sangue de tartarugas, que também capturavam, posto que ele é menos salgado do que o de outros animais. Córdoba não suportou nem a dieta nem a situação emocional e faleceu algum tempo depois – estima-se que em quatro meses, com seu corpo sendo jogado ao mar. A partir disso, se por um lado passou a não existir com quem dividir os parcos recursos disponíveis, por outro Alvarenga começou a enfrentar também a solidão, que se torna um inimigo implacável.

Uma caixa grande de isopor era o que lhe servia de abrigo para dormir ou se proteger do sol e intempéries. Seu corpo sofria cada vez mais, mas a sobrevivência dependia de manter de algum modo a saúde mental. Assim, ele estabeleceu uma rigorosa rotina dentro do pequeno espaço. Tinha horas certas para realizar a pescaria ou caça. Em outras limpava o barco e em mais algumas olhava o horizonte, na esperança de enxergar algo que não fosse o céu e a água. E seus propósitos se completavam com a imaginação. Com fome, divagava “vendo” banquetes luxuosos. Ou, diante da saudade dos seus, se via em caminhadas com a família. Para completar a difícil manutenção da sanidade, fazia planos para o futuro.

Em 30 de janeiro de 2014 o barco de Alvarenga finalmente atingiu um recife de corais nas Ilhas Marshall. Então, ele nadou até a praia de um pequeno atol chamado Ebon, onde foi encontrado por moradores locais. Haviam sido percorridos cerca de 10.800 quilômetros, em 438 dias. O feito foi recebido com algum ceticismo, pela mídia e pelas autoridades. Isso porque muitos imaginavam que ele deveria estar quase que um esqueleto. Porém, exames médicos realizados confirmaram que estava com anemia severa e que os problemas hepáticos encontrados eram compatíveis com a dieta mantida no período. Mesmo assim, chegaram a submetê-lo a testes de polígrafo, o detector de mentiras, quando ele narrou a aventura toda.

Seu recorde mundial de sobrevivência sozinho à deriva no mar foi depois imortalizado no livro “438 Days: An Extraordinary True History of Survival at Sea (2015), do jornalista Jonathan Franklin. Esta obra é quase que um manual de resiliência emocional, de enfrentamento à depressão e manutenção inquebrantável da esperança – o que o impediu inclusive de cometer suicídio. Antes de Alvarenga, quem mais tempo se mantivera vivo em condições semelhantes fora um marinheiro chinês de nome Poon Lim. Em 1942, o navio onde ele estava foi torpedeado por nazistas. E ele ficou 133 dias sobre uma balsa de madeira, no Atlântico, até ser resgatado no Pará, na costa brasileira. Suas técnicas, também foram narradas e acabaram incorporadas aos manuais de treinamento da Marinha Real Britânica.

17.02.2026

José Salvador Alvarenga

O bônus de hoje é a música Sailing, de Christopher Cross. O clipe está legendado em português.

Você gosta de política, comportamento, música, esporte, cultura, literatura, cinema e outros temas importantes do momento? Se identifica com os meus textos? Se você acha que há conteúdo inspirador naquilo que escrevo, considere apoiar o que eu faço. Contribua por meio da chave PIX virtualidades.blog@gmail.com ou fazendo uso do formulário abaixo:

Uma vez
Mensal
Anualmente

FORMULÁRIO PARA DOAÇÕES

Selecione sua opção, com a periodicidade (acima) e algum dos quatro botões de valores (abaixo). Depois, confirme no botão inferior, que assumirá a cor verde.

Faça uma doação mensal

Faça uma doação anual

Escolha um valor

R$10,00
R$20,00
R$30,00
R$15,00
R$20,00
R$25,00
R$150,00
R$200,00
R$250,00

Ou insira uma quantia personalizada

R$

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Faça uma doaçãoDoar mensalmenteDoar anualmente