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MINÚSCULA RETROSPECTIVA, COM GENTE GRANDE

Não há um único final do ano no qual os meios de comunicação deixem de fazer as conhecidas retrospectivas. Os fatos do ano que finda, sejam eles agrupados por datas ou por editorias, são destacados conforme a relevância a eles atribuída, em geral com ênfase para política, economia e esporte, além de questões climáticas – que estão ganhando cada vez maior importância –, fatos curiosos, conquistas e perdas. O trabalho dos jornalistas precisa atender ao público como um todo, sem nichos e com o mínimo de esquecimentos.

Se um historiador fosse examinar o mesmo período, talvez destacasse datas e personagens. Mas, qual deveria ser o olhar de um cronista, que pode se dar ao luxo de não considerar a urgência dos fatos, assim como não precisa se debruçar sobre a importância econômica, política e social dos envolvidos? No meu caso específico, uma vez que me permito fazer passeios por temas tão estanques e distantes, para conseguir fazer algo parecido, teria que focar em parte do que posto.

Deste modo, opto aqui por voltar hoje meus olhos para algo mais leve, distante dos estrondos da política e do frenesi da economia. E puxo da memória e das anotações sons mais agradáveis, imagens mais claras e movimentos mais emocionantes. Assim, faço referência a três tipos de arte, perpassando literatura, cinema e música. É sobre isso que este texto se debruça. Nesta retrospectiva de 2025, as grades das celas e os índices da bolsa de valores dão lugar às páginas dos livros; o ruído das manifestações e guerras cede espaço ao silêncio das salas de cinema; e os gritos de gol se transformam na harmonia de tantas melodias que nos salvaram muitas vezes do caos reinante. Enquanto o mundo externo se debatia entre números e decretos, restava a oportunidade de refúgio na palavra de Adélia Prado, na imagem projetada de Fernanda Torres e no acorde místico de Milton Nascimento. Porque, se é mesmo a política e a economia que decidem como vivemos, é a cultura e a arte que nos dizem por que vale a pena viver. 

Focando em aspectos positivos, na literatura, o mestre da biografia e da crônica, Ruy Castro, foi o grande vencedor do Livro do Ano (Prêmio Jabuti) com a obra “O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim”. A já citada Adélia Prado, aos 90 anos, lançou “O Jardim das Oliveiras”, que foi eleito uma das mais significativas obras do ano passado, por críticos e leitores, reafirmando sua posição como a maior poeta viva do Brasil. E tivemos também a revelação de muitos talentos novos, como Marcus Groza (romance) e Abáz (conto), vencedores do Prêmio Sesc de Literatura. Por outro lado, saindo da resistência para a frente da saudade, vimos o adeus a Luis Fernando Verissimo e de Heloísa Teixeira, perdas que deixaram a crônica e a crítica órfãs de um olhar que sabia traduzir o Brasil com precisão cirúrgica.

Buscando nas telas a luz que a realidade, por vezes, nos negou, temos que destacar que o cinema nacional viveu um ano de glória, não apenas como entretenimento, mas como espelho histórico. Ao vermos Fernanda Torres e Selton Mello brilhando em “Ainda Estou Aqui“, se compreende que o cinema brasileiro aprendeu a falar de suas dores mais profundas com uma beleza que o mundo não pôde ignorar. E que rendeu nosso primeiro Oscar. Se a economia tentou nos reduzir a números, a sétima arte nos devolveu a nossa condição de seres de sonho e memória. Mas, perdemos os diretores Cacá Diegues, um dos pilares do Cinema Novo, que dirigiu obras fundamentais como Xica da Silva e Bye Bye Brasil. E Tizuka Yamasaki, que trouxe a força feminina para produções como Gaijin

Na música, o ano foi uma orquestra de contrastes. O samba chorou o seu luto por Arlindo Cruz e a MPB se despediu da visceralidade de Angela Ro Ro, mas o compasso não parou. O Brasil de 2025 foi o país que viu Anitta levar o funk às urnas da Academia do Grammy. E Milton Nascimento, com as últimas apresentações de sua carreira, mostrou ao mundo que a voz de Minas é um patrimônio universal. Tivemos ainda outras turnês históricas, como a do adeus de Gilberto Gil e a conjunta dos irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ao mesmo tempo, o pianista pernambucano Amaro Freitas levou o instrumental brasileiro a um novo patamar global com o seu álbum Y’Y. Entre o choro e o acorde de jazz, a música foi a nossa respiração compassada. Nesses e em inúmeros outros gêneros.

Registrando ainda profundo sentimento em relação a tantos que deixarão enorme lacuna e saudade, há muitos outros nomes a citar. No grupo da literatura, a premiada escritora, poeta e tradutora Marina Colasanti, e o ensaísta e poeta Affonso Romano de Sant’Anna. Na dramaturgia, nos despedimos de Berta Loran, Dorinha Duval e Francisco Cuoco.

Na música, o gênio experimentalista de Hermeto Pascoal e os talentos inigualáveis de Nana Caymmi, Preta Gil e Lô Borges. Em outros campos da arte, ainda menciono  Jaguar, cartunista e um dos fundadores do lendário jornal O Pasquim, figura central da resistência cultural e do humor gráfico; Sebastião Salgado, reconhecido em todo o mundo como um fotógrafo fantástico, sua perda é sentida como uma das maiores vozes das artes visuais e do ativismo ambiental brasileiro; e o jornalista ítalo-brasileiro Mino Carta, fundador de inúmeras publicações relevantes e um ícone na sua atividade, após sete décadas de influência no mercado editorial.

O presente texto não pretendeu citar todos os destaques e as partidas, destas áreas. E, como se viu, limitou também a abrangência apenas ao Brasil. A opção foi bastante pessoal e pode ser considerada como uma proposta, um olhar quase apressado, porém registro que ouso julgar necessário. Que pensando nas obras de cada um deles, possamos nós mesmos alcançarmos patamares de realização e sucesso, ao longo de 2026. Que este ano, que hoje se inicia, seja repleto de aspectos positivos! É o que desejo para todos os leitores do virtualidades.blog e seus familiares e amigos.

1º.01.2026

Adélia Prado: professora, poeta, romancista e contista mineira ligada ao Modernismo

O bônus de hoje é vídeo de Edu Krieger, no qual ele apresenta na forma de música uma retrospectiva de 2025. Lógico que muito mais completa do que a minha.

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