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UMA FRASE LAPIDAR

No meu entendimento, poucas vezes alguém deve ter conseguido dar uma explicação tão simples e ao mesmo tempo tão exata a respeito da condução de nossas vidas. O filósofo espanhol Jose Ortega y Gasset a colocou em sua primeira obra considerada relevante, que tem o título de Meditações do Quixote (Meditaciones del Quijote), que foi publicada em 1914. “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não salvo a mim” consegue resumir o núcleo do seu pensamento filosófico, que é conhecido como “raciovitalismo”.

Três eixos explicam essa visão: a interdependência, a responsabilidade e a ação. O primeiro deles afirma que o indivíduo não consegue existir de forma isolada, sendo uma espécie de “eu puro”. Isso por ser inseparável do mundo, da cultura, da época e até mesmo do corpo que habita. O segundo coloca como circunstância não apenas o que nos rodeia, mas toda a matéria-prima com a qual construímos nossas vidas e sobre a qual temos que ter compromisso, comprometimento, cuidado e até uma necessária obrigação. E o terceiro se concretiza a partir do trecho no qual ele diz “se não salvo a ela, não salvo a mim”. Porque ele quer dizer que, para a realização do nosso potencial humano, temos que agir sobre o mundo ao nosso redor e dar sentido ao ambiente no qual se está inserido.

O pensamento de Ortega y Gasset se torna fundamental para que se tenha um entendimento da filosofia do Século XX, na medida em que ele tenta encontrar o que seria um “meio-termo” entre o racionalismo puro e o existencialismo. Antes desse espanhol, Descartes e muitos filósofos focaram na simplificação do “penso, logo existo”. Ou seja, trataram o pensamento como algo isolado do mundo. E o avanço foi dizer que viver é estar no mundo, que não há pensamento sem a existência de uma realidade em nossa volta.

Tentando explicar de outra forma, ele propôs que a vida é a realidade fundamental. Entendia que todas as coisas, como as oferecidas pela ciência, pela arte ou pela política, derivam do fato de estarmos não apenas vivos como também tendo que decidir o que fazer, a cada momento. Assim, Ortega y Gasset defendia que ninguém carrega em si ou possui a verdade absoluta. E que cada pessoa vê o mundo de um ponto de vista distinto, de uma perspectiva única. Assim sendo, a verdade total seria a soma de todas essas visões individuais.

Considerando isso como algo verdadeiro, a melhoria de cada um de nós, como pessoas, deveria resultar na melhora da sociedade como um todo. Mas, desde que isso incluísse a parte da AÇÃO, não sendo meramente uma postura contemplativa. Não fosse algo que se resumisse ao “arrependimento religioso”, que no fundo é apenas uma tentativa de negociar com Deus, um mero pedido de perdão. Um “admito que errei, que sou imperfeito, então por favor releve isso tudo”.

Voltando a Ortega y Gasset, se pode citar pelo menos mais duas obras dele que merecem ser lidas. Com “O que é filosofia?” (1929) se pode ter uma excelente introdução ao método que ele propõe. E com “A Rebelião das Massas” (1930), o seu livro mais famoso, se encontra uma análise da ascensão do “homem-massa” na sociedade moderna e também o enorme risco que o conformismo e a falta de propósitos nobres terminam por oferecer.

Além do conceito de “homem-massa”, ele também cunhou o de “homem nobre”. E a distinção entre esses dois tipos humanos não está de modo algum relacionada com classe social ou posse de recursos financeiros. Se trata apenas de uma questão de atitude perante a vida. O primeiro se sente “como todo mundo”, sem angustiar-se por isso. Fica na cômoda posição de “herdeiro” da civilização e aproveita todos os benefícios que ela pode oferecer (tecnologia, direitos, conforto). Esse, no entanto, não consegue entender o esforço que foi necessário para criar tudo isso. É petulante – acredita que tem direito de opinar sobre tudo, sem estudo ou esforço algum para entender o assunto. E também é ingrato – trata todo o processo como algo natural, que existe como o sol, a água, o ar, sem considerar o sacrifício de gerações anteriores. Enfim, vive em completa inércia intelectual, não se exigindo em nada. Aceita as ideias todas que são postas em sua cabeça, sem questionar se são verdadeiras.

O “homem nobre”, por seu turno, é sinônimo de uma vida de esforço e superação. Vive em constante tensão consigo mesmo, buscando ser cada vez melhor do que é. Jamais se contenta com o que já sabe ou aquilo que já é. Para ele, a busca da verdade é uma espécie de missão. E sabe que a civilização é frágil, exigindo cuidado constante para não desmoronar. Aqui entre nós, como acontece com a democracia.

Ortega y Gasset viveu entre 1883 e 1955. Escreveu ainda, além dos três livros citados acima, Espanha Invertebrada (1921), O Tema do Nosso Tempo (1923), A Desumanização da Arte (1925), Missão da Universidade (1930), Ao Redor de Galileu (1933), Autorreflexão e Alteridade (1939), Ideias e Crenças (1940) e História como Sistema (1941). Note que suas obras mais famosas foram escritas quando ele tinha entre 30 e 50 anos, em período de grande efervescência intelectual na Europa, entre as duas Guerras Mundiais. 

03.01.2026

Jose Ortega y Gasset

O bônus de hoje é clipe da música Somos Quem Podemos Ser, com a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii.

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