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APLAUSOS A MUÇULMANOS

Dois atos praticados por muçulmanos, nos últimos dias de 2025, servem como excelente exemplo de coragem e dignidade, respectivamente. Um deles aconteceu na Austrália, outro no Brasil. Não há como compará-los, consideradas a sua relevância momentânea e o impacto causado, mas ambos merecem reconhecimento e gratidão.

Em Bondi, uma praia australiana, durante evento da comunidade judaica, atiradores extremistas mataram 15 pessoas a tiros. E a situação não foi ainda mais grave, com um número maior de vítimas, porque um homem conseguiu imobilizar e desarmar um dos fanáticos. O que acontecia na areia era a festa conhecida como Hanukkah, que celebra a vitória da luz sobre a escuridão, fazendo uma metáfora do bem se sobrepondo ao mal. Também comemora a pureza superando a degeneração e o materialismo perdendo espaço para a espiritualidade. Agora, a surpresa, algo de fato totalmente inesperado: o ato heroico foi praticado por um muçulmano. O homem agiu contra a barbárie, a agressão irracional e a desinteligência. No momento em que decidiu se arriscar para salvar desconhecidos, não interessou a ele quem esses eram, que religião professavam. Agiu com coragem e humanidade.

Em São Paulo, após a decisão do cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer, que proibiu o padre Júlio Lancellotti de transmitir suas missas nas redes sociais, o sheikh muçulmano Rodrigo Jalloul decidiu fazer isso por conta própria. Com o uso de seus recursos e espaços, permitiu que milhares de católicos não fossem privados deste momento, que para eles é meio de experimentar a presença divina, de fortalecimento da fé. Teve a sensibilidade de entender o quanto havia sido absurda a decisão da cúpula católica, tomada certamente devido a pressões externas contra a atividade desenvolvida na Pastoral do Povo de Rua. Assim, o seguidor do Alcorão demonstrou imensa dignidade, mostrando na prática o que é tolerância religiosa.

O herói muçulmano na Austrália – ele nasceu na Síria – tem o nome de Ahmed al Ahmed. Ele está com 43 anos e acabou ferido com dois tiros, um no ombro e outro em uma das mãos, durante a ação. Terminou por isso hospitalizado, local onde recebeu a visita do primeiro-ministro Anthony Albanese, que foi agradecer. Há um vídeo, disponibilizado pela BBC, que o mostra correndo em direção ao atirador, entrando em luta corporal e tomando sua arma. Depois, apontou-a contra ele, mas não atirou: apenas o forçou a recuar, para depois ser preso.

Rodrigo Jalloul é um líder religioso, conhecido por ser o primeiro clérigo xiita (*) de origem brasileira formado no Irã. Ele tem atuação marcante na capital paulista, onde nasceu, especialmente voltada para causas sociais. Também se destaca pelo diálogo que propõe entre diferentes crenças. Ele é neto de libaneses, por parte de pai, e de espanhóis, por parte de mãe. Sua família materna tinha tradição circense e ele próprio chegou a atuar como palhaço, durante a infância. Foi a partir dos 15 anos que, buscando resgatar suas raízes árabes e aprender o idioma, começou a frequentar mesquitas e acabou se convertendo ao Islã. Hoje em dia, é o Iman (líder espiritual) do Centro Islâmico Fátima Az-Zahra, localizado no bairro Penha, na zona leste.

A exemplo do que faz o padre Júlio Lancellotti, Rodrigo Jalloul também trabalha com acolhimento e distribuição de alimentos e agasalhos para pessoas em extrema carência. E participa ativamente de fóruns que promovem a liberdade religiosa, propondo a convivência pacífica entre muçulmanos, cristãos e judeus. O que deve ser no fundo a vontade de Maomé, Jesus Cristo e Abraão.

05.01.2026

(*) O termo xiita foi apropriado indevidamente para designar terroristas ou extremistas em virtude de eventos geopolíticos específicos, e não por razões teológicas inerentes a este ramo do Islã. A apropriação do termo é imprecisa e resultado de generalizações da mídia e do discurso político. O islamismo possui outras vertentes, como os sunitas e os ibadis. E clérigo é todo o indivíduo que pertence à classe eclesiástica, em diferentes religiões.  

O bônus de hoje é clipe da música Laços, com Nando Reis e Ana Vilela.

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