A ORIGEM DO HINO DA VIRADA

Existe uma música que praticamente todos os brasileiros conhecem e que se tornou algo como um hino informal, sempre relacionado com a virada do ano. Não há final de dezembro sem que se cante Marcas do Que se Foi, ou pelo menos se assista alguém fazendo isso na televisão. Ele tem um grande time de autores: Ruy Maurity, Paulo Sérgio Valle, Tavito e José Jorge, que contaram ainda com as participações de Mércio Mora e Ribeiro. A gravação original foi feita pelo grupo Os Incríveis, em 1976. No ano seguinte, também o cantor mineiro Márcio Lott (pela Som Livre), além do grupo Os Fevers, fizeram o mesmo, atingindo um sucesso ainda maior. O que pouca gente sabe é que esta criação foi uma propaganda do governo militar, que tinha o general Ernesto Geisel no momento como presidente de plantão.

Iniciava-se naquele ano o que chamaram de “abertura lenta e gradual”, sendo necessário suavizar a imagem do regime, que não era nada boa. Por causa disso, a equipe responsável pela comunicação institucional do governo contratou uma empresa especialista nisso, sendo ela uma das maiores do Brasil neste gênero: a Zurana Criações e Produções. Vários jingles comerciais famosos foram produção dela, como os criados para o Guaraná Brahma e a Cremogema, um mingau feito à base de amido de milho. Um dos seus sócios era justamente o Tavito, que se notabilizou como parceiro musical de Zé Rodrix.

Com a música pronta, a escolha de quem a gravaria recaiu sobre o grupo Os Incríveis, porque eles haviam gravado outras canções consideradas ufanistas, sendo do agrado dos militares. Com a gravação feita, milhares de discos foram distribuídos gratuitamente para emissoras de rádio de todo o país. Também foram produzidos vários clipes, de tal modo que fossem veiculados nas televisões. Nestes, as imagens mostravam, ao melhor estilo de publicidade de margarina, famílias sempre felizes se preparando para a festa de final de ano. Havia ainda um que no qual um militar ajudava um senhor de idade e acendia um cigarro para ele – algo inaceitável, sendo nos dias atuais. A mensagem se resumia em dizer que se os brasileiros se mantivessem unidos e caminhassem lado a lado, tudo seria bom para o país.

Este ano quero paz/ No meu coração/ Quem quiser ter um amigo/ Que me dê a mão./ O tempo passa e com ele/ Caminhamos todos juntos/ Sem parar/ Nossos passos pelo chão/ Vão ficar./ Marcas do que se foi/ Sonhos que vamos ter/ Como todo dia nasce/ Novo em cada amanhecer. Estes são os treze versos, divididos em três estrofes, que compõem o trabalho. Simples e viciante, como convém a esse propósito. Além do fato de ser bem escrito, talvez tenha contribuído para sua permanência posterior, superando o propósito inicial, o fato de que realmente houve ao final daquele período de escuridão um novo amanhecer.

Tivemos também, ao longo do tempo da ditadura militar, várias canções que enfrentaram um deslocamento de sentido, pensadas com objetivos comerciais, poéticos ou meramente circunstanciais, que acabaram tendo uma alteração de percurso. Foram ressignificadas politicamente pelo contexto histórico e pela recepção do público. Um primeiro e básico exemplo pode ser dado com O Bêbado e a Equilibrista (1979), de João Bosco e Aldir Blanc. De homenagem lírica ao universo do circo e à volta de Elis Regina aos palcos, tornou-se verdadeiro hino da anistia. Talvez impulsionado pelo verso “meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil”, o sociólogo e ativista Betinho, que fora exilado.

Com A Banda (1966), de Chico Buarque, a intenção era apenas criar uma marcha alegre, quase ingênua, sobre a passagem de músicos pelas ruas da cidade. Virou metáfora de alienação coletiva, um contraste com o tempo de repressão e silêncio imposto. Romaria (1977), canção pessoal e religiosa de Renato Teixeira, que a compôs inspirado na fé popular, foi ouvida como retrato da dor social causada pela crescente desigualdade e abandono do povo simples, durante o regime.

Quando criou a genial Como Nossos Pais (1976), Belchior expressava a vivência de conflitos geracionais e existenciais. A música passou a ser vista como crítica à estagnação, à frustração das promessas de mudança que nunca se cumpriam. Sabiá (1968), de Tom Jobim e Chico Buarque, tratava-se apenas de uma canção lírica, sobre saudade e retorno à terra natal. Foi ressignificada ao lembrar o exílio forçado de inúmeros artistas e intelectuais, virando “fuga poética”. E O Que Será – À Flor da Pele (1976), também de Chico Buarque, composta para ser trilha do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, feita com forte carga erótica e existencial, virou uma alegoria representativa do desejo reprimido, de tudo aquilo que não podia ser dito.

Os seis exemplos colados acima mostram que, durante a ditadura, o público tornou-se coautor de muitas canções. A censura, ao tentar controlar os sentidos, estimulou leituras simbólicas, indiretas e coletivas. Isso fez com que muitas músicas escapassem do seu propósito inicial, ganhando uma vida política própria. O que se deu não por panfletagem, mas por ressonância histórica.

07.01.2025

O bônus de hoje é Marcas do Que Se Foi, em gravação de Os Incríveis.

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