O ALIMENTO NOSSO DE CADA DIA
Todos nós – falo de mim mesmo e de quem me lê – provavelmente tenhamos o privilégio de fazer várias refeições por dia. E existem verbos que identificam e acompanham todas elas. Ou quase todas. Na hora do almoço, vamos almoçar; quando do lanche da tarde, costumamos lanchar; na hora da janta, vamos jantar; e há pessoas que fazem ainda uma última refeição mais leve antes de ir dormir, que é a ceia. Essas, portanto, gostam de cear. Agora, você já se deu conta de que não se tem verbo para o café da manhã ou desjejum? Ninguém fala em cafear. Desjejuar está nos dicionários, mas totalmente esquecido por lá, sem uso corrente. É derivado do substantivo “jejum”, estar privado de alimentos, acrescido do prefixo “des”, que aponta para uma negação ou separação.
Aliás, estar em jejum ao acordar é normal, pois se passou algumas horas dormindo. Mas, existe aquele que é proposital, voluntário. Isso pode ser decorrência do preparo para algum exame laboratorial, por exemplo. Ainda tem o que é aplicado como uma das tantas formas de dieta com fins de emagrecimento: o tal intermitente. Uma estratégia alimentar que alterna períodos sem ingestão calórica – mantendo permissão para água, café e chá sem açúcar – com períodos de alimentação regular. O que não sei se todo nutricionista ou médico recomenda.
Também temos o Jejum, personagem filho do protagonista Rango, nas tirinhas criadas pelo cartunista gaúcho Edgar Vasques. Miseráveis, eles são moradores de rua lutando pela sobrevivência diária, vendo comida apenas lá de vez em quando. A dupla ainda tem o cachorro Boca Três, que disputa com eles os restos encontrados no lixo, além de alguns amigos, colegas de infortúnio. O grupo representa aquela camada mais vulnerável da sociedade, vivendo em condições de extrema pobreza. Mas, entre todos há uma permanente aura de respeito e uma dignidade enorme. O nome do menino, obviamente, se trata de uma ironia amarga.
Sobre o jejum como providência apregoada por várias religiões, convém ressaltar: aquele que agrada a Deus provavelmente vai muito além da simples abstenção de alimentos. Ele deve incluir atitudes de compaixão, justiça e amor ao próximo. Deve ser algo simbólico, um privar-se no sentido de sobrarem recursos, que devem ser agregados a tempo e atenção para as demais pessoas. Uma manifestação inequívoca de amor ao próximo. Se ele for praticado com o coração aberto e pleno de sinceridade, com o necessário foco no compartilhamento com os famintos, no fornecimento de abrigo a todos os necessitados e com a libertação dos oprimidos, será um jejum válido. Aliás, como descrito em Isaías 58: visando transformação no interior e um relacionamento profundo com o Criador, ficando longe de ser apenas uma prática externa.
Voltando aos nomes dados às refeições, no português que herdamos de Portugal existia sim um dado para a primeira do dia. E era almoço. Isso perdurou por aqui, durante algum tempo. Em livros de Machado de Assis, por exemplo, há momentos nos quais ele narra que personagens estão almoçando e se sabe, pelo desenvolvimento do trecho da história, que de fato estão tomando café da manhã. Até o final do Século 19 a ordem era almoçar, jantar, merendar e cear. Foi quando a expansão da produção do café no Brasil foi criando o hábito das pessoas tomarem a bebida pela manhã, um estimulante para a abertura do dia, ainda antes da primeira refeição. Depois, ele foi se incorporando aos acompanhamentos e levou à mudança do nome. E empurrou as identificações das demais para uma outra ordem.
Só que a vida é tão dinâmica quanto são os idiomas – ou o contrário, o que parece bem mais apropriado. E mudanças de hábito ocorreram também fora daqui. Em Portugal mesmo, o café da manhã ganhou o acréscimo de um adjetivo e hoje em dia é chamado de pequeno almoço. Eles ainda costumam, o que é diferente do Brasil, fazer dois lanches: um no meio da manhã e outro no meio da tarde. Com quaisquer nomes e não importando o lugar, com certeza Rango, Jejum, Boca Três e seus amigos adorariam participar de cada um desses momentos.
15.11.2025

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