NUNCA SE PERCA DE VOCÊ

Uma prova de esgrima. Duas oponentes se enfrentam em disputa muito acirrada, mas uma delas lidera por pequena margem. A que está atrás na pontuação, em determinado momento, pisa em falso e torce o seu tornozelo. Atendida pela equipe médica, consegue retornar à pista. No entanto, evidentemente prejudicada, não tem como fazer frente à adversária e está fadada a ser derrotada. Porém, a oponente não a ataca. Em duas oportunidades recua de propósito, o que pelas regras do esporte significa evasão. Evitar o combate resulta em penalidade pela “fuga”. A esgrima exige que o ataque e a defesa sejam sempre ativos. Em uma terceira oportunidade em que tinha o movimento ofensivo simplesmente abaixou o florete. Esse é um sinal de rendição. Ela preferiu perder do que derrotar uma adversária sem condições físicas.

A história que narrei acima realmente aconteceu. Vi as imagens, porém não consegui determinar que competição era aquela. Mas temos outros bons exemplos de desportividade e honradez em vários esportes. Para ficar ainda na esgrima, durante a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, se enfrentavam em uma das primeiras rodadas o espadachim tcheco Jirí Beran e o brasileiro Athos Schwantes. Faltavam apenas 27 segundos para o fim do embate, quando Beran se lança ao ataque, sendo assinalado ponto para ele. Enquanto Athos voltava à linha de guarda, o oponente se dirigiu ao árbitro e pediu a anulação do ponto, o que não foi entendido. Então, repetiu calmamente: “Toquei em mim mesmo, não nele”. Estava sendo dada uma demonstração inequívoca de jogo limpo – fair play, para quem ama um estrangeirismo –, o que levou o público a aplaudir de pé o feito do visitante. Isso lhe custou a vitória, mas demonstrou sua enorme dignidade. Ele estava com 34 anos e aquela era sua última oportunidade de participar dos jogos. Porém, não lhe interessava uma vitória injusta.

Quem dera exemplos como esses fossem levados por todos, para a vida cotidiana. Esse é o extremo oposto da “Lei de Gérson” (*), que significa levar vantagem em tudo. O problema é que, a partir do momento no qual se prioriza sempre o nosso lado em tudo e a qualquer preço, sem dar espaço mínimo à empatia, paradoxalmente não é dos outros que nos distanciamos, mas de nós mesmos. Quem só vê a si próprio deixa de se enxergar. E essa espécie de cegueira não física nos desumaniza.

Ouso reafirmar: é a empatia, capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, que talvez nos permita uma aproximação maior de nós mesmos. O olhar para fora como forma de ver muito melhor como somos por dentro. Nem que seja para não ficar satisfeito e buscar com isso as necessárias melhorias. Porque é a partir desta possibilidade que as coisas acontecem e se alteram. Experiências e visões de mundo diferentes oferecem que se avalie e compare com as nossas. E aceitar derrotas, admitir existência de imperfeições, são habilidades fundamentais também para que se estabeleça uma razoável comunicação interpessoal e a construção de relações saudáveis.

Aliás, profissionais chegam a classificar a empatia como existente em três níveis distintos. Seria a cognitiva (entender o ponto de vista do outro), a emocional (sentir o que o outro sente) e a compassiva (perceber e agir para ajudar). E esse conjunto têm como características principais a compreensão, o não-julgamento, a escuta ativa e a aceitação de nossas diferenças e limitações. Por isso tudo, não vencer sempre – até porque não há no mundo campeão algum que consiga isso – é importante. O que não significa não desejar a vitória, nem competir fortemente para que ela seja alcançada. Apenas não se deve colocar conquistas acima da vida e de seus valores maiores. Simples assim.

18.09.2025

(*) A “Lei de Gérson” se tornou uma expressão popular no Brasil devido a um comercial de cigarros que o antigo meio-campista gravou, na década de 1970. Nela ele explicava ter escolhido aquela marca usando o bordão “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. Isso se tornou símbolo de atitudes oportunistas, de uma falsa malandragem, de comportamento que desconsidera a ética e indica abertura para corrupção.

Jirí Beran x Athos Schwantes

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