O poeta Leandro Gomes de Barros é considerado o pioneiro da literatura de cordel brasileira. Pelo menos foi o primeiro a realizar de modo sistemático a publicação e comercialização dos folhetos, transformando a poesia popular nordestina em uma atividade editorial organizada. Ele nasceu em 19 de novembro de 1865, em Pombal, na Paraíba, e morreu em 4 de março de 1918, no Recife, Pernambuco.

Sua produção combinava humor, crítica social, religiosidade, histórias fantásticas, sátira política e reflexões sobre a condição humana. Seus versos conquistaram um público muito amplo, especialmente entre leitores e ouvintes do Nordeste. Mas hoje é reconhecido muito além daquele território.

Leandro era filho de José Gomes de Barros Lima e Adelaide Gomes de Barros Lima. Aos nove anos, após a morte do pai, mudou-se com a mãe e os irmãos para a Vila do Teixeira, na Paraíba. Na nova morada, foi educado sob a influência do tio materno, padre Vicente Xavier de Farias. Na região, conviveu com violeiros, repentistas e cantadores populares, experiência decisiva para sua formação literária. Começou a escrever folhetos por volta de 1889. Posteriormente, estabeleceu-se no estado de Pernambuco, passando por Jaboatão e Vitória de Santo Antão, até fixar residência no Recife, em 1907.

Extraordinário é que Leandro conseguiu viver da venda da sua própria poesia, algo incomum ainda hoje em dia. Imaginemos, então, como seria naquela época. E ele fazia de tudo: escrevia, editava, imprimia e ainda anunciava e vendia pessoalmente os folhetos. Chegou a manter uma pequena gráfica, que recebeu o muito apropriado nome de Typografia Perseverança. Também viajava pelo Nordeste para comercializar suas publicações.

A extensão exata de sua produção é discutida pelos pesquisadores, em parte devido às reedições, variantes e apropriações indevidas de seus textos. A Fundação Casa de Rui Barbosa conserva centenas de folhetos atribuídos ao poeta. Uma das informações confirmadas é que Leandro influenciou diretamente a criação de Auto da Compadecida, obra-prima do seu conterrâneo Ariano Suassuna. Pelo menos dois episódios, o enterro do cachorro e o cavalo que defecava dinheiro, presentes na peça de Suassuna, teriam sido inspirados em histórias de Leandro. Assim, sua literatura popular chegou também aos palcos, ao cinema e à televisão.

Praticamente seis décadas depois da morte de Leandro, em 1976, Carlos Drummond de Andrade publicou uma crônica dedicada ao cordelista, no Jornal do Brasil. Nela, reconheceu sua extraordinária importância para a cultura brasileira, referindo-se a ele como um rei da poesia sertaneja. A homenagem contribuiu para ampliar o reconhecimento do poeta fora do Nordeste.

Outro aspecto que merece atenção é que Leandro não foi apenas um poeta de histórias engraçadas ou aventuras populares. Sua obra também demonstra interesse por questões filosóficas, religiosas, morais e sociais. Essa capacidade de tratar temas universais com a linguagem do povo é uma das razões de sua permanência na literatura brasileira. Excelente exemplo deste tipo específico de abordagem está nos versos de O mal e o sofrimento, que utilizo para o fechamento desta crônica:

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

02.11.2026

P.S.: A ilustração desta crônica imita os desenhos característicos dos cordéis. Ela foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é o vídeo abaixo, com Literatura de Cordel, música de Francisco Diniz.


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