FUTEBOL É ALGO MUITO SÉRIO

Pelo menos dois motivos distintos me permitem afirmar categoricamente o que estou colocando como título acima. O primeiro deles reside no fato de que esse esporte, o mais popular de todo o planeta, mexe de modo muito profundo com o sentimento de milhões de torcedores. Trata-se, de modo inquestionável, de um fenômeno social, cultural e psicológico que constrói identidades, estabelece vínculos entre gerações e proporciona experiências emocionais difíceis de encontrar em outras atividades humanas.

Há uma particularidade fascinante: o torcedor não participa diretamente do jogo, não controla o resultado, mas experimenta a vitória e a derrota como se estivesse dentro de campo. Essa contradição ajuda a explicar a sua força extraordinária. O futebol oferece algo essencial ao ser humano: a sensação de pertencer a um grupo. Ao escolher um clube, o indivíduo incorpora uma identidade que frequentemente o acompanha por toda a vida. Passa a integrar uma comunidade de pessoas que compartilham símbolos, cores, hinos, histórias, conquistas e sofrimentos. É conhecida a afirmação de que se pode trocar qualquer coisa, menos de clube.

A psicologia social explica parte desse fenômeno pela chamada teoria da identidade social, que foi desenvolvida pelos psicólogos Henri Tajfel e John Turner. Nossa autoestima pode estar parcialmente associada aos grupos dos quais fazemos parte. Por isso, quando alguém diz “nós ganhamos”, mesmo sem ter entrado em campo, está expressando um vínculo psicológico verdadeiro. O clube deixa de ser uma instituição externa e passa a integrar a própria identidade do torcedor.

Há ainda o fenômeno da transmissão afetiva. Ela ocorre quando um pai leva o filho ao estádio. Um avô conta histórias de jogadores que o neto nunca viu. Uma camisa antiga, uma fotografia ou um ingresso guardado tornam-se objetos carregados de memórias. O futebol cria uma espécie de herança emocional. Em geral os torcedores não escolhem seus times de modo consciente, mas como herança da paixão da família, do bairro, dos amigos ou das experiências da infância. Não por acaso, se torna imenso o sofrimento de um pai quando seu filho não o segue nessa escolha.

A segunda razão para que se afirme sobre a seriedade do tema está nos fatores econômicos e financeiros envolvidos. Hoje ele é uma atividade que movimenta bilhões de dólares no mundo todo. Sustenta empresas, influencia turismo, transforma cidades e alimenta uma extensa cadeia de produção e consumo. Os rendimentos que ele proporciona não são apenas os diretos, com clubes, atletas, treinadores, funcionários, as federações e os estádios. Há os indiretos, com fornecedores de materiais esportivos, empresas de transporte, hotéis, restaurantes, emissoras de rádio e TV, prestadores dos mais variados serviços. Isso além de um terceiro nível: o consumo induzido feito pelas pessoas que recebem seus rendimentos dessas atividades antes citadas.

Apenas dois recortes mostram o que estou dizendo. Na temporada 2024/2025, o futebol profissional europeu movimentou 40,2 bilhões de euros, segundo estimativas. A Série A do futebol brasileiro, em 2025, alcançou R$ 14,3 bilhões em receitas dos 20 clubes que dela participaram. Por isso, no nosso caso em especial, não se pode mais compreender e aceitar que este ambiente tão profissionalizado ainda conviva com arbitragem amadora. Sim: apenas árbitros e bandeirinhas são amadores no nosso futebol, não vivendo exclusivamente dessa sua atividade. Ela se tornou um bico. Muito bem pago, mas ainda assim um bico. E o problema é que seus eventuais erros repercutem pesadamente em todo esse ecossistema citado acima.

Na luta titânica contra o rebaixamento, este ano, estão pelo menos dez dos vinte clubes. E cair significa perder R$ 100 milhões no próximo ano. Isso de receita direta vinda dos meios de comunicação, que pagam para transmitir os jogos. Há inúmeras outras perdas, essas indiretas, com desvalorização do ativo representado pelos atletas, queda na bilheteria e na venda de produtos. Sem contar a credibilidade, que nem pode ser avaliada com facilidade.

Todos sabem que sou gremista e, por isso, vou avaliar essa situação a partir de acontecimentos recentes envolvendo meu clube. Isso não invalida as reclamações, muitas delas mais do que justas, dos torcedores dos demais times. Para demonstrar como erros de arbitragem aparentemente simples e ocasionais, decorrentes da inevitável falibilidade humana, podem mudar o destino de uma instituição e de sua imensa massa torcedora, vou me deter em três situações recentes que podem ter influenciado diretamente a classificação do campeonato. Repito que outros tantos episódios certamente ocorreram, envolvendo diferentes clubes, e não pretendo negar sua existência nem diminuir sua importância.

No jogo Remo e Grêmio, em Belém do Pará, houve um pênalti claro para o time da casa, cometido por Kannemann e não assinalado. O empate em 1×1 poderia ter se tornado 2×1 para o Remo. Assim, tira-se um ponto do Grêmio e se acrescenta dois para o clube nortista. Logo na rodada seguinte, em um Gre-Nal disputado na Arena – outro empate em 1×1 – foi o tricolor gaúcho que teve uma penalidade máxima a seu favor sendo sonegada. Poderia ter vencido, o que tiraria um ponto do Internacional e acrescentaria dois para si. Claro que pênaltis não são certeza de gol, mas uma oportunidade imensa.

Até a noite de ontem, com metade da 33ª rodada do Brasileirão Série A deste ano concluída, 79 pênaltis haviam sido marcados, com 64 deles convertidos (81,01%) e 15 desperdiçados (18,99%). Os dados foram retirados do Real Leader, uma plataforma brasileira especializada em estatísticas, análises, probabilidades e projeções de campeonatos de futebol. Ela possui serviços gratuitos e pagos e declara que não é uma empresa de apostas (*).

Uma terceira situação foi a anulação daquele que seria o gol de empate em 3×3 entre Botafogo e Grêmio, no Rio de Janeiro. A CBF teve a desfaçatez de defender seu árbitro de vídeo, informando que o jogador do Grêmio estava impedido por um centímetro. Precisão de fazer a NASA morrer de inveja. A igualdade retiraria dois pontos dos cariocas e acrescentaria um à pontuação dos gaúchos. A diferença que hoje é de 39 a 34 se tornaria 37 a 35. E, como tem Grêmio e Athetico logo mais na Arena, se poderia sonhar com a ultrapassagem.

Assim, sendo a falibilidade humana um fator indissociável do futebol, prossegue o sofrimento. Matematicamente, existem oito clubes correndo o risco do rebaixamento, supondo que Remo e Chapecoense já possam ser considerados rebaixados (Vasco e Botafogo com muitíssimo menos chance de cair). Grêmio e Internacional entre eles. E faltam apenas o término da atual rodada e mais cinco delas. “Haja coração”, como popularizou em bordão um dos narradores mais chatos e famosos que temos. Então, que se siga torcendo. E secando, como convém.

29.10.2026

(*) A proibição das bets no Brasil já apresenta reflexos positivos no consumo das famílias. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), desde a decisão do governo Lula o volume de vendas de alimentos cresceu 6,5%, indicando que recursos antes destinados às apostas podem estar retornando às compras essenciais.

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Eye of the Tiger. Esta é uma canção da banda de rock Survivor, lançada em 1982. Tornou-se um dos maiores hinos motivacionais da música popular graças ao seu riff marcante, à associação com o filme Rocky III e ao enorme sucesso comercial e cultural que mantém até hoje.