VAN HATTEM, UMA MORTE E AMEAÇAS
Ele é um dos candidatos a ocupar uma das duas vagas em disputa no Rio Grande do Sul, para o Senado. Marcel van Hattem nasceu em São Leopoldo no dia 8 de novembro de 1985. Porém, cresceu em Dois Irmãos, onde iniciou sua vida tanto profissional quanto política. Nesta cidade foi eleito vereador em 2004, aos 18 anos, tendo recebido um total de 697 votos. Portanto, o seu mandato se estendeu entre 2005 e 2008.
No dia 9 de outubro de 2006, por volta de 15h45, no km 230 da BR-116, em Ivoti, Marcel dirigia uma camionete Mazda B2500, placas CRT-2859, quando atropelou um homem. Não havia chuva ou qualquer intercorrência a reduzir a visibilidade. A vítima, o mecânico chapeador Adair José Wiest, de 41 anos, caminhava pelo acostamento quando acabou atingido. Sofreu traumatismo craniano e entrou em coma profundo. Não morreu imediatamente: permaneceu nessa condição por quase sete meses no hospital, antes de falecer.
O inquérito tratou de início a ocorrência como lesão corporal. Entretanto, de modo surpreendente, a informação da morte posterior não chegou ao inquérito ou à Justiça. Talvez por ser Dois Irmãos uma grande metrópole, com centenas de casos se acumulando nas mesas das autoridades. De tal forma, não houve alteração, o procedimento permaneceu enquadrado como lesão e não homicídio. Acabou prescrevendo depois de ficar cinco anos sem que houvesse solução.
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul analisou posteriormente as provas do acidente e atribuiu a responsabilidade a Van Hattem. No julgamento da Apelação Cível nº 70039964804, em 4 de maio de 2011, a 11ª Câmara Cível do TJRS confirmou que Adair estava no acostamento, e não que tivesse entrado repentinamente na pista, como sustentava a defesa. Segundo o acórdão, Van Hattem perdera o controle ao passar por uma curva, invadiu o acostamento e atingiu Adair. A decisão também registra evidências de que ele trafegava a pelo menos 70 km/h em trecho cujo limite era 40 km/h. O TJRS manteve o entendimento de que houve comportamento culposo do motorista e sua responsabilidade.
Explicando melhor: não houve responsabilização na esfera criminal, mas ocorreu na cível. A pequena indenização por danos morais foi de R$ 25,5 mil, com o valor transmitido aos herdeiros. Foram condenados solidariamente o próprio Van Hattem e a empresa que era proprietária da camionete que ele estava dirigindo.
Em 2021, Marcel Van Hattem era deputado federal, eleito pelo Novo/RS. No dia 29 de abril daquele ano, Manuela D’Ávila levou sua filha Laura, então com cinco anos, à escola que frequentava, em Porto Alegre. Na entrada do colégio, uma foto das duas foi feita sem que se soubesse publicamente quem era o autor ou autora. Cerca de duas horas depois, a imagem já circulava em grupos de WhatsApp, acompanhada de críticas políticas a Manuela. Com o radicalismo inerente à extrema-direita, mãe e filha passaram a ser alvo de uma campanha de ódio nas redes sociais, que incluiu ameaças de morte à mãe e de estupro contra a criança.
Manuela acusou publicamente Paola Donida, mãe de outra criança que frequentava a mesma escola, de participar da disseminação da fotografia e posteriormente registrou ocorrência contra ela. Paola é esposa de Ricardo Gomes, que havia sido chefe de gabinete de Marcel Van Hattem e, em 2021, era vice-prefeito de Porto Alegre, eleito na chapa de Sebastião Melo – ele era do DEM e migrou no ano seguinte para o PL, de Jair Bolsonaro. Paola reconheceu ter encaminhado a imagem para um grupo de mães. Ricardo também confirmou o encaminhamento, mas sustentou que a mulher recebera a fotografia de terceiros.
As ameaças foram investigadas pela Polícia Civil, e o caso mobilizou ainda o Ministério Público e representantes da Câmara dos Deputados, que chegaram a se reunir com o governador Eduardo Leite e com o vice-governador Ranolfo Vieira Júnior. Apesar disso, não foi imputada responsabilização criminal pelos ataques. Como se alguns interesses maiores tivessem trabalhado no sentido de deixar o tempo passar, a poeira baixar. As ameaças continuaram: em 2022, Manuela tornou públicos novos ataques contra ela, Laura e até contra sua mãe. Assim, afirmou que a violência sofrida pela família influenciava suas decisões pessoais e políticas. Ela chegou a cogitar deixar o Brasil e, depois disso, passou uma temporada nos Estados Unidos com a família enquanto desenvolvia seu doutorado. Agora, de volta ao Rio Grande do Sul, disputa com Van Hattem os votos dos gaúchos em 4 de outubro.
28.09.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje oferece a música Last Kiss (Último Beijo), da banda estadunidense Pearl Jam. Ela é uma das fundamentais em se tratando do rock daquela país, das últimas três décadas e meia. Surgiu em 1990, em Seattle, mesmo ambiente que produziu Nirvana, Soundgarden e Alice in Chains. Depois dela temos ainda Pra Todas as Mulheres, de Mariana Nolasco, cantora, compositora e instrumentista de Campinas, São Paulo.