NOSSA SENHORA SOB ATAQUE
A antiga controvérsia a respeito do título de Padroeira do Brasil, atribuído a Nossa Senhora Aparecida, voltou ao debate político e religioso. Ela tem essa designação, esse reconhecimento desde 16 de julho de 1930. Foi a data da assinatura do decreto, pelo Papa Pio XI. Porém, com a ascensão dos grupos evangélicos em nosso país, isso passou a incomodar essas pessoas. E mais uma vez estão tentando “cassar” a denominação.
A movimentação nesse sentido é real e ocorre principalmente fora dos canais oficiais do Congresso e longe dos meios de comunicação. Ela se espraia usando redes sociais, grupos de WhatsApp, e envolve setores evangélicos de várias denominações. Só que está ficando mais difícil manter essa clandestinidade e vozes começam a levantar-se com mais força, defendendo que se retire isso da legislação brasileira. Por que está mesmo nela, através da Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que ainda determinava a criação do feriado nacional de 12 de outubro.
O desejo dessa retirada não é novo nem pode ser tratado simplesmente como invenção das redes sociais. Em 2007, o então deputado Professor Victório Galli, ligado à Assembleia de Deus, apresentou o Projeto de Lei 2.623. O texto propunha substituir “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A Câmara dos Deputados registra oficialmente que rejeitou e arquivou a proposta em agosto de 2008. Um dos argumentos apresentados por Galli era a laicidade do Estado. O que parece não valer quando se trata de imaginar e trabalhar por um futuro predominantemente evangélico para nosso país.
Existe também uma divergência teológica histórica. Muitas das diversas denominações protestantes, especialmente de tradição pentecostal e neopentecostal, rejeitam a veneração de santos e de imagens religiosas por considerá-la incompatível com sua interpretação bíblica. Mesmo não se podendo atribuir essa posição de maneira uniforme aos evangélicos como um todo, essa e outras posturas radicais são de fato preocupantes.
Essa mesma intolerância vem atingindo, de forma particularmente grave, seguidores das religiões de matriz africana. Estão documentados, em todo o país, numerosos episódios de invasões, depredações e incêndios de terreiros, além de ameaças e agressões físicas contra praticantes de umbanda e candomblé, atribuídos a grupos de orientação pentecostal ou neopentecostal. Levantamentos sobre intolerância religiosa mostram que os próprios locais de culto estão entre os principais alvos das agressões.
A tensão já produziu episódios graves também contra os católicos. O mais conhecido aconteceu em 12 de outubro de 1995, quando Sérgio von Helder, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, agrediu com chutes e golpes uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante o programa O Despertar da Fé, transmitido pela TV Record. O episódio provocou enorme repercussão e levou a Igreja Católica a realizar missas de desagravo.
Há ainda um caso anterior e mais diretamente relacionado à destruição de uma imagem. Em 1978, um homem identificado como evangélico retirou do altar da Basílica de Aparecida a própria imagem histórica da santa. Durante o episódio, a peça de terracota caiu e se fragmentou, sendo posteriormente necessário que fosse submetida a um complexo trabalho de restauração.
O debate que ressurge agora, portanto, possui antecedentes concretos. E, apesar de não existir ainda uma nova proposta formal para a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida, cresce o murmúrio de que ela não tardará a chegar. A chamada “bancada evangélica” no Congresso estaria inclusive tentando cobrar de Flávio Bolsonaro, mesmo que por enquanto “a boca pequena”, com o máximo de discrição e sem alarde, que assuma compromisso nesse sentido. Seria, de certa forma, uma contrapartida ao apoio que os evangélicos estão dando a ele nas eleições. E que não será de modo algum esquecido, caso ele chegue ao Planalto. Que a santa olhe pelos brasileiros; até por aqueles que não estão olhando por ela.
26.09.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Ave Maria, de Schubert, com o maestro e violinista holandês André Rieu, a soprano australiana Mirusia e The Johann Strauss Orchestra, de Maastricht, nos Países Baixos. A gravação foi feita em 2013.