O ESQUECIMENTO PODE SER UMA BÊNÇÃO

Não lembrar de certas coisas, ou ter apenas uma memória parcial sobre elas, pode ser algo muito salutar. Refiro-me não àquelas falhas eventuais, quando não lembramos onde ficou a chave do carro ou mesmo do nome de uma pessoa. Estes são lapsos, não chegam a ser um problema na medida em que são temporários e dificilmente causam algum dano. O não lembrar ao qual me refiro agora é aquele que o tempo vai apagando aos poucos, deixando espaço para o que é relevante de fato.

Em boa medida, o esquecimento não é uma falha da memória, sendo na verdade uma das suas funções mais necessárias. Se tudo tivesse a mesma permanência estaríamos saturados pelo trivial. Esquecer também é uma forma de selecionar. Isso ajuda o pensamento e a racionalização, porque nos permite abstrair. Das experiências preservamos os significados, os padrões e as relações, formando conceitos.

Uma memória absoluta seria na verdade um enorme tormento. Teríamos cada discussão, perda, humilhação e sofrimento, tudo guardado com a mesma nitidez, por décadas, por toda a existência. Claro que as alegrias também estariam todas lá, mas os sofrimentos seriam permanentes, do mesmo modo. Sobre situações que podem gerar desafetos – e todos nós passamos por muitas – esquecer pode favorecer a reconciliação. Isso não significa apagar deliberadamente uma ofensa, mas a perda daqueles detalhes causadores e o alívio da carga emocional ajudam para que se reconstruam pontes e relações. Pobre da pessoa que não sabe perdoar; pobre da sociedade onde as pessoas não se perdoam.

É importante distinguir a lembrança da compreensão. Uma pessoa que em tese lembrasse de milhares de fatos não teria, apesar disso, certeza de uma melhor compreensão. Essa demanda inteligência, algo que não é um inventário. Entendimento exige capacidade interpretativa, ter como avaliar a qualidade dos dados, sua importância e condições de uso. E são os espaços criados pelo “esvaziamento” das memórias menos relevantes que se abrem para a atualização do conhecimento e também do nosso comportamento. Nosso cérebro não funciona como um disco rígido de computador, no qual novos arquivos exigem que outros sejam apagados quando falta espaço. Ainda assim, a metáfora serve para alguma coisa: informações que perdem importância podem enfraquecer, enquanto outras, mais úteis ao presente, ganham relevância

Jorge Luis Borges imaginou o martírio da memória perfeita ao escrever “Funes, o memorioso”. Tal personagem, depois de um acidente, passa a recordar absolutamente tudo, com detalhes esmagadores – a única e temporária vantagem que vejo nisso é quando nos preparamos para uma prova, um concurso. Justamente por não conseguir esquecer, encontra dificuldades para generalizar e até para abstrair. O escritor relata que Funes tinha dificuldade em compreender que o cão visto de perfil num determinado instante pudesse receber o mesmo nome daquele visto de frente um minuto depois.

A neurociência moderna chegou a uma ideia que conversa muito bem com Borges: esquecer pode ser um processo ativo e adaptativo, e não apenas deterioração ou defeito da memória. Existem várias pesquisas propondo que certa dose de esquecimento ajuda o cérebro a tomar decisões em ambientes que mudam, descartando informação que deixou de ser útil. Assim, se pode afirmar que somos feitos tanto daquilo que lembramos quanto daquilo que conseguimos esquecer. Uma memória absolutamente fiel talvez nos desse um passado muito mais completo — mas poderia nos deixar com muito menos presente. E talvez com ainda mais incertezas diante do futuro.

14.09.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é a música Tudo Que Vai, do Capital Inicial.