CURY PROMETE ATÉ O FIM DA DEPRESSÃO

Estamos na reta final da campanha de uma eleição que está assumindo o peso de ser uma das mais importantes da história do nosso país. Claro que no caso da presidência da República, aquela que aparenta ser a de maior impacto entre as seis decisões que teremos que tomar nas urnas são apenas dois os candidatos que despontam, praticamente já estando definido que se enfrentarão em segundo turno. O que não significa que não devamos prestar atenção nas propostas de todos, nem que seja para nos depararmos com a grandeza de certos absurdos.

Nesse bloco, impossível deixar de falar de Augusto Cury. Conhecido há anos como psiquiatra e escritor de autoajuda, seu nome está agora em um surpreendente terceiro lugar, mesmo que muito atrás dos favoritos. Longe de Lula e Flávio, ele chegou a estar bem na frente de outros, políticos mais conhecidos e tradicionais no meio. No início da campanha tinha um simples risco em todas as pesquisas, o que representa menos de um por cento das intenções de voto. Depois, do nada teve um súbito impulso – provavelmente artificial e decorrente de uma disseminação coordenada nas redes sociais – e andou beirando os dois dígitos em aferições de meados de agosto. Isso antes da retração constatada, que agora o coloca em patamares mais estáveis, próximo de cinco por cento.

Os livros desse homem, sendo analisados friamente, já são uma fraude, como a candidatura de agora. Mesmo tendo atingido vendagens de milhões de exemplares, em vários países, as obras sempre foram manuais de supostas soluções fáceis para os mais variados e difíceis problemas. O título do seu maior sucesso aponta – mesmo não sendo essa a sua intenção, obviamente – justo para aquilo que ele sempre foi. O Vendedor de Sonhos, de 2008, alcançou sozinho quatro milhões de exemplares vendidos. Chegou a ser transformado em série e foi também adaptado para o cinema.

Inegável é que ele está alcançando razoável número de corações e mentes, sendo isso uma decorrência do nível da doença coletiva à qual a sociedade brasileira está submetida, desde 2018. De lá para cá o medo passou a ser talvez o principal instrumento de submissão. A difusão da crença em inimigos imaginários, a disseminação de mentiras deslavadas, o incentivo ao armamento da população, a política do ódio e do desprezo pela vida, a valorização da individualidade, o combate a qualquer tipo de empatia são fatores que resultaram em um país fraturado. Então, não se pode achar estranho que muitos confundam agora a urna com um divã. Nem tampouco se espantar com seu slogan, “o Brasil tem cura”.

O impagável Gustavo Mendes andou postando, com absoluta razão, que o plano de governo de Augusto Cury parece ter sido escrito depois que um drone, o Chat GPT e a Alexa fizeram juntos um retiro espiritual. Vejam que ele propõe criar o Ministério da Inteligência Artificial e usar os nossos embaixadores como influencers. No caso do necessário combate aos casos de violência contra a mulher, sugere o uso de aplicativos, sirenes e socorro chegando a partir de drones. Isso sem contar que 5% do efetivo dos servidores públicos passariam a integrar uma força preventiva. Com essas e outras medidas de cair o queixo, ele assegura que até mesmo as pessoas com depressão tenderão a superar esse mal psíquico.

Ele se propõe a ser um coach, não um presidente. Os problemas reais, ligados à saúde, educação, desenvolvimento, desigualdade de renda, geração de empregos, relações internacionais, energia, transporte, fome, infraestrutura e segurança pública, para citarmos alguns e não todos, esses seriam enfrentados como? E a administração do orçamento, as relações com os demais poderes, a busca por justiça social? Sem revelar o que pretende, sem propor meios de chegar aos fins que tenha, sejam eles quais forem, o que ele faz é pedir votos concretos para sustentar um universo abstrato.

Agora, no mundo atual, não podemos nos espantar com esses caminhos tortos como modo de chegar ao  poder. O ucraniano Volodymyr Zelensky era comediante e ator, antes de se tornar presidente. Eleito, assumiu o papel de preposto da OTAN e cutucou a Rússia com vara curta. Aqui ao nosso lado, Javier Milei era comentarista de televisão, antes de incumbir-se do leme e deixar a Argentina à deriva. George Weah, na Libéria, passou de astro internacional do futebol para presidente, mas já deixou o poder. Também na Guatemala se teve um fenômeno parecido, com o humorista Jimmy Morales tendo chegado à presidência.

O próprio Donald Trump, antes da eleição de 2016 era uma celebridade, um apresentador de televisão e empresário rico. Não havia sido sequer vereador, antes de se tornar perigosamente o comandante supremo do exército mais poderoso do mundo. Forças armadas que ele ameaça usar a todo momento, como recurso extremo para manter de pé um império decadente.

23.09.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é a música Candidato Caô Caô, composição de Pedro Butina e Walter Meninão, gravada por Bezerra da Silva em 1988.