O BOLSA FAMÍLIA PODE ESTAR COM OS DIAS CONTADOS

A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, que busca a Presidência da República, tornou pública uma informação que todos já sabiam – e que alguns temiam. Apesar de isso ser negado com veemência na propaganda eleitoral, o representante da extrema-direita vai determinar o encolhimento imediato do Bolsa Família. Fará sem levar em consideração o enorme impacto que tal medida causará na vida de milhões de brasileiros. Daniella Marques contou isso tangencialmente, ao dar uma entrevista para a CBN Bahia.

Segundo ela, nenhuma família permanecerá recebendo o benefício se, no prazo de dois anos, não tiver conseguido emprego formal ou aberto algum tipo de negócio. Pelo modelo atual, o Bolsa Família prevê que o desligamento se dê com a autonomia conquistada, sem determinar que isso ocorra em prazo definido. O que tem dado certo, tanto que entre março de 2023 e maio de 2026 mais de 5,1 milhões de famílias saíram da lista, com boa parte tendo feito isso de forma voluntária e muito digna. Acontece que não raras vezes razões externas impedem que tal ocorra, não sendo, como tanta gente que nunca passou fome costuma apregoar, preguiça ou acomodação.

Durante sua fala Daniella colocou que seria uma espécie de “ou dá, ou desce”. Segundo a coordenadora, esse será o prazo máximo para que tomem iniciativas destinadas a melhorar suas condições econômicas. Depois, para atenuar o amargo da medida e especialmente as repercussões negativas que viriam da sua manifestação, ela disse que poderá ser permitido o retorno ao programa, caso o empreendedorismo ou a tentativa de inserção profissional fracasse. Mas não detalhou os procedimentos para recuperar o benefício depois do desligamento, o que torna essa promessa ainda mais estranha e inconfiável.

A regra de proteção atual permite uma transição gradual para famílias que conseguem melhorar seus rendimentos. E a diferença política está no critério utilizado para encerrar a assistência. Atualmente, a evolução da renda determina a permanência ou a saída. Na proposta anunciada pela campanha de Flávio Bolsonaro, o tempo passaria a ocupar posição central.

O candidato também está prometendo criar o Ministério da Prosperidade, com crédito, capacitação e parcerias privadas. Essas iniciativas, porém, não representam nenhuma garantia de emprego ou renda para as famílias atendidas. Aliás, o próprio nome é um agradinho a mais para os evangélicos. Essa corrente religiosa se baseia em boa parte naquilo que chama de Teoria da Prosperidade – criada nos EUA –, algo que com frequência é confundido com uma teoria econômica ou social, sem que o seja, de modo algum. Ela sustenta que a fé em Deus, acompanhada de determinadas práticas espirituais e contribuições financeiras – claro que o dízimo não ficaria de fora –, pode proporcionar riqueza, saúde, sucesso profissional e bem-estar material.

Como se vê, a proposta de prejudicar a vida dos mais carentes para ajudar no “tesouraço” prometido por Flávio, se for posta em prática, irá de fato requerer muita fé para assegurar a sobrevivência. Assim, é muito mais sensato cortar o mal pela raiz, já na escolha eleitoral que será feita no próximo domingo.

20.10.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Tem Gente com Fome, que tem letra do poeta, dramaturgo, artista e militante negro pernambucano Solano Trindade. Sua produção literária se caracterizava pela denúncia da exploração econômica, da marginalização dos trabalhadores e do racismo. Escrito em 1944, o poema foi censurado durante o Estado Novo. Foi musicado por João Ricardo, fundador dos Secos & Molhados. E a música também foi proibida, quando da Ditadura Militar. A gravação de Ney Matogrosso só chegou ao público em 1979, no álbum Seu Tipo.