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IMPRENSA E ELEIÇÕES

Anos atrás eu assumi como editor-chefe de um jornal diário de cidade do interior do Rio Grande do Sul. Foi no início de abril e teríamos eleições municipais naquele ano. Tão logo definidos os candidatos, tratei de fazer uma reunião com representantes de cada uma das três chapas, na qual expliquei quais seriam os critérios que adotaríamos, na cobertura política do período pré-eleitoral. Havia um horário limite para a chegada de notas com as agendas e outros conteúdos. Elas seriam reescritas por alguns dos profissionais da empresa, padronizadas e postas em página fixa. O espaço físico seria rigorosamente igual para todas e faríamos um rodízio na posição que cada candidatura ocuparia na página.

Com tudo acertado o trabalho foi sendo realizado sem problemas. Até que um dia o dono do jornal me chamou na sala dele, onde encontrei também um representante situacionista. Pessoa conhecida na cidade, homem forte do partido, me disse que estavam insatisfeitos com o que estávamos fazendo. Eu não entendi a razão e tratei de buscar arquivo das edições, mostrando ser absolutamente equânime o tratamento que estava sendo dado. Daí ouvi dele uma pérola, algo inesquecível mesmo. Disse que estavam todos do seu grupo gostando de como o partido e seus coligados estavam sendo tratados. Mas muito insatisfeitos pelo fato dos outros também estarem recebendo a mesma atenção. Que isso era algo inadmissível para eles, pois jamais havia acontecido antes.

Devo dizer que não concordei em alterar o que havia sido acordado antes, inclusive com a participação dos agora insatisfeitos. Na certa eles tinham acreditado que a tal reunião era pró forma, conversa para boi dormir. E que tudo continuaria como sempre fora antes. Não aceitei alterar e ponto final. Como eu era relativamente novo na empresa, isso poderia ter custado o meu emprego. Mas não custou. Serviu apenas para que eu tivesse na prática a confirmação de algo que sempre soubera à distância: o quanto é difícil para muitos entenderem o que é democracia e o que é profissionalismo. Eu sou um cidadão e voto como qualquer outro que esteja apto para tal. Tenho direito de escolher candidatos que sejam alinhados com o meu pensamento político. Mas tenho o dever, estando trabalhando, de tratar com a mesma dignidade e respeito os que pensam diferente. Porque, na minha profissão, ao menos em tese, o verdadeiro patrão é o público que consome as informações que nós repassamos.

Não se pode ser ingênuo e acreditar que as pressões possam sempre ser superadas sem perdas. Ou achar que as cobranças políticas são as únicas que preocupam. Na verdade, essas são mais sérias em períodos eleitorais, sendo as de ordem econômica as mais persistentes. O risco de perder anúncios em geral apavora a classe patronal. Eu já sentei nos “dois lados do balcão” e sei o quanto isso pode ser grave. Voltando ao jornal aquele onde fui editor-chefe, posso citar um outro exemplo. Empresário local sofreu um acidente rodoviário voltando de cidade distante e perdeu a vida. Colegas de um jornal daquela localidade passaram informações e fotos para que se publicasse. Mas houve um problema delicado: ele não estava sozinho no veículo e a mulher que o acompanhava não era a sua esposa. Então a notícia poderia ser publicada, mas no automóvel, por um passe de mágica, restou apenas o motorista. A sociedade local poderia continuar fingindo que aquela também era uma família perfeita e feliz. E nenhuma publicidade fugiria das nossas páginas.

Estamos entrando em mais um ano eleitoral. Informação é poder, apesar de agora ter ocorrido uma migração da imprensa para as redes sociais. Mesmo assim, numa guerra não se pode negligenciar quaisquer armas que estejam disponíveis. Ninguém abrirá mão dos jornais e muito menos das emissoras de televisão. Nos meios eletrônicos, que são concessões do poder público, já existe uma distribuição de tempo no tal “espaço de propaganda eleitoral gratuita”, regrado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mas é na forma subliminar da apresentação das notícias, na seleção editorial dos conteúdos que mora a real disputa. O mesmo vale para a imprensa, desde a escolha de fotos e de manchetes até a suave – ou nem tanto – forma de apresentar os candidatos “abençoados”. Não é nada incomum o uso de lentes de aumento, que são aplicadas nas qualidades dos parceiros e nos defeitos dos adversários.

E as pessoas em geral e o eleitorado em particular seguirão acreditando que existe uma opinião pública, quando na verdade o que há é uma opinião incutida no público. Boa parte votará com base nela, ficando feliz com a escolha que imaginam ter sido livre. Nunca saberão que existia mais alguém naquele veículo que rumava para as urnas e dormirão todas o sono dos justos. Farão parte de mais uma família perfeita e feliz, tendo cumprido um importante papel na democracia.

03.01.2022

O bônus de hoje é a música Candidato Caô Caô, do Rappa, com participação especial de Bezerra da Silva.

COMEÇA O ÚLTIMO ANO

Minha avó me dizia seguido que “não há bem que dure para sempre nem mal que nunca se acabe”. A minha e talvez as de todos vocês. O ditado é bem mais antigo do que elas, mas creio que será eternamente atual. Por um lado, a gente lamenta quando perde; mas por outro, se trata de um alívio inenarrável em determinadas ocasiões. Por exemplo, hoje é o primeiro dia do último ano do (des)governo de Jair Bolsonaro. Um ótimo motivo para a gente ficar feliz. Claro que ainda preocupados, porque todos conhecemos o enorme talento que ele tem para destruir tudo e, desse modo, serão mais 365 dias para ele seguir colocando em prática essa capacidade inigualável. Talvez com mais empenho ainda, porque se trata de um ano eleitoral e, quando ele se der conta que não há como ganhar sem um golpe – e que não há clima para isso –, vai ficar ainda mais perigoso do que sempre foi.

Uma das estratégias usadas por militares em guerra é acabar com toda e qualquer infraestrutura existente em território que precisem abandonar, forçados a recuar por seus inimigos. Não deixam pontes, instalações úteis, estruturas de geração e distribuição de energia elétrica e da água, e até colheitas, que preferem incendiar. Ou seja, nada que possa vir a ser aproveitado pelos outros combatentes que ocuparão a área logo após sua retirada. Consideram isso mais do que aceitável, algo de fato necessário. Bolsonaro inovou, causando danos no território que ainda ocupa. Imaginem o que irá deixar, ao ser apeado do poder. Não ficará qualquer coisa em pé. A terra provavelmente vai ser devolvida arrasada. Mas será outra vez de quem acredita nela e na vida, na liberdade e na fraternidade, na democracia e no convívio. E as instituições serão reconstruídas, mesmo que perdas irreversíveis sejam deixadas como herança.

Quando eu planejei escrever sobre isso, resolvi fazer um levantamento de tudo o que foi feito pelo atual governo, que teve como consequência a piora das condições de vida dos brasileiros e perdas para o país. Não deu certo. Sem ter listado tudo eu já tinha alcançado cerca de 20 páginas – estou dizendo a verdade –, o que foge do propósito do blog, que é sempre abordar da melhor maneira que eu consiga, qualquer assunto, em seis parágrafos em média, para leitura rápida. Ou seja, foi-se a ideia da retrospectiva, mesmo sendo isso algo bem comum para essa época do ano, ao menos nas emissoras de televisão e nas revistas semanais. O que até foi bom, admito. Vejam que as festas de final de ano já deixam as pessoas suficientemente sensíveis, não sendo apropriado que eu contribua para gerar depressão, fazer com que meus adorados leitores se sintam mal. Vamos deixar isso para os desencontros que seguido acontecem, nos encontros familiares. Ou para o arrependimento, depois de excessos alimentares e alcoólicos que possam ter sido praticados.

A verdade é que o homem foi e seguirá sendo um fracasso absoluto. Retumbante mesmo. Um capitão louco em uma nau que está à deriva. Sem entrar nos detalhes que eu cheguei a pensar em trazer, temos desemprego recorde, inflação galopante, privatizações absurdas, dolarização dos combustíveis, crise sanitária sem enfrentamento correto, trabalho precarizado, incentivo ao armamento da população, educação pública sendo destruída, desmatamento da Amazônia, descrédito da ciência, instrumentalização das policiais, o pior ministério de todos os tempos, tentativa de amordaçar o judiciário, perseguição a funcionários públicos, militarização do governo, retirada de recursos do SUS, ataque sistemática à cultura, descrédito internacional e obsessão por um novo mandato. O Brasil voltou ao Mapa da Fome e temos visto pessoas buscando restos em caminhões de lixo e lutando por ossos e pés de galinha nos açougues. Com tudo isso, se torna fácil fazer uma listinha, na qual existe enorme espaço para esquecimentos – Freud explicaria, com certeza –, em virtude de não ter eu nenhuma tendência sadomasoquista.

Difícil seria se me coubesse citar realizações do seu governo. Alguma obra de infraestrutura? Algum mínimo esforço no sentido de combater a desigualdade social? Quaisquer incentivos dados à indústria nacional; melhorias no transporte, na saúde, na educação? Respeito mínimo ao meio-ambiente? Valorização real do salário mínimo? O que se viu recentemente foi uma debandada de um grande número de empresas multinacionais, como Ford, Mercedes-Benz, Sony, Roche, Nike, Fnac, Nikon, Audi, Walmart e dezenas de outras que foram embora do Brasil, aumentando o desemprego, hoje em 14,7%, o quarto maior do mundo.

Então, melhor que eu conclua com uma proposta de resolução de ano novo. Uma apenas, que pode se juntar às de cunho particular de cada pessoa. Vamos fazer de tudo para manter a resiliência necessária, com ações efetivas que estejam ao nosso alcance, que possam contribuir para o não agravamento do caos reinante. Para que se minimize os danos, para que se torne menos difícil o esforço posterior para colocar o Brasil nos trilhos. E que, com isso feito, se possa lembrar destes quatro anos apenas como um pesadelo. Ou como uma enfermidade: vamos imaginar que o organismo social foi acometido de uma doença chamada fascismo, que julgávamos erradicada, tipo a varíola. E ela voltou, precisando de tratamento, de combate sistemático. Nós vamos juntos encontrar a cura e o passo seguinte será acreditar em uma nova e necessária vacina, que impeça recaídas e infecções. Então tudo será visto como um inesperado desvio da rota e do destino dessa pátria, que merece um lugar de destaque entre as nações.

1º.01.2022

O bônus de hoje é a música Novo Governo, com o grupo Ponto de Equilíbrio. Na letra eles citam povos nativos, como os Kayapó Mebêngôkre (PA), Krahô (TO), Guarani Mbyá (SC), Fulni-ô (PE), Alto Xingu (MT), Huni Kuin (AC), Xavante (MT) e Kalunga (GO).

E, como não pude fazer a retrospectiva que desejava, vai uma pequena amostragem em vídeo sobre a grande festa popular com a qual nosso governo tem nos brindado.