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MUDOU POUCO ALÉM DO SAPATO

A imensa maioria das emissoras de televisão aberta em nosso país têm pouco ou nenhum compromisso com a cultura e com o jornalismo. Elas são campo propício para uma espécie de programação que valoriza a violência e a miséria, transformando essas mazelas em espetáculo. Não há nada de novo nessas minhas duas afirmações de abertura. Este recurso apelativo para a obtenção de audiência existe há muito tempo, com pequenas variações na sua forma e muito menos ainda no seu conteúdo. Animadores de desgraças, como Ratinho, Sikêra Júnior, João Kleber, Datena e outros que estiveram ou estão no ar, têm muito em comum, mas não são de modo algum nem pioneiros nem inovadores. Mesmo que os recursos técnicos à disposição nos dias de hoje sejam superiores, o que eles oferecem são variações de um mesmo e antigo tema.

O conteúdo dos programas é montado para buscar o sensacionalismo, até onde ele não exista naturalmente. Para tanto, abusam de explorar os instintos mais primitivos das pessoas, desrespeitam moradores das periferias, mulheres, negros e os direitos humanos. Coisificam a tudo e a todos, em geral fazendo uso de um pseudo jornalismo, como ferramenta que expõe intimidades e é cuidadosamente elaborado para alimentar o conformismo dos telespectadores incautos, em relação à posição social que ocupam. A programação cumpre ainda outro papel pensado: o de ser um mecanismo compensatório, uma válvula de escape pronta para aliviar frustrações.

O indivíduo que se posta diante da tela vê o mundo como um ambiente sempre hostil, pronto a engolir ele próprio, uma “pessoa de bem”, com a sua família. O perigo está lá fora, a repressão é necessária e ele se conforma com ela. Apatia e medo são a certeza de não sobrar espaço para revolta alguma. É importante que o consumidor dessas “verdades” se torne um simples instrumento. Para que ter autonomia e pensar? Que bom se ainda estou vivo, tenho uma ração de subsistência e até mesmo uma ocupação, apesar de informal. Viva o padrão que o sistema impõe! Eu sou muito feliz e nem reparo na domesticação. Até sei ler, mas não gosto de fazer isso. Não conheço nem quero conhecer livros como O Poder Simbólico, de um francês chamado Pierre Bourdieu. E também não me interesso em saber sobre o que escreveu seu conterrâneo Michel Foucault. A alienação é doce, nessa minha vida amarga.

O precursor dessa excrescência toda foi Jacinto Figueira Júnior. Ele era conhecido como “O Homem do Sapato Branco”, pois essa era uma marca registrada sua, sempre presente na sua vestimenta. Inventou, por exemplo, a expressão “mundo cão”, que usava nos seus programas nas madrugadas. Circulou por Globo SP, Bandeirantes, Record e SBT, entre 1963 e 1997, com um intervalo na época da ditadura militar. Sua principal característica era fazer com que tudo se transformasse em uma grande cobertura, não importa o quão pequeno fosse na realidade. Levou ao ar coisas que hoje em dia são inimagináveis, como uma cesariana. Adorava receber casais brigados para que lavassem toda a roupa suja possível em pleno palco. O que ainda hoje é feito, apesar de ser agora em geral uma representação grosseira. Outra das temáticas recorrentes, que ele adorava abordar, era a paranormalidade.

Na abertura do programa de Jacinto, as câmeras focavam primeiro os seus sapatos, antes de abrirem para um plano geral. No fundo, uma música dramática escolhida a dedo. Quando perguntado sobre a razão desta sua fixação, respondeu que era uma “homenagem” a médicos e psiquiatras, uma vez que ele próprio, na realização do seu trabalho, agia sendo um “médico do povo”. Talvez até fosse. Mas ele e seus seguidores recentes sempre cumpriram e cumprem melhor o papel de anestesistas.

02.12.2021

Jacinto Figueira Júnior, “O Homem do Sapato Branco”

O bônus de hoje o áudio da música Miséria, de Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Sérgio Britto, com os Titãs.

Acima, a capa do livro O Poder Simbólico, de Pierre Bourdieu, que é citado no texto. Se você clicar sobre ela será direcionado para a possibilidade de compra. Adquirindo um exemplar por esse caminho, o blog será comissionado.